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| José Gregorio Tovar vive no Brasil há 1 ano e 6 meses. |
Professor universitário por mais de quatro décadas na Venezuela, José Gregorio Tovar, de 68 anos, vive há um ano e oito meses na capital roraimense, separado da família. Para ele, a ofensiva era algo esperado por parte da população que se sentia sem alternativas. “Esse ataque era esperado. O povo venezuelano não tinha mais apoio interno. Foram anos de uma ditadura que oprimiu o povo, destruiu a economia, a educação e empurrou milhões para fora do país. Queríamos mudanças”, afirmou.
José Gregorio relata que viu universidades esvaziarem, salários serem reduzidos a valores simbólicos e a educação perder força. Segundo ele, professores chegaram a receber o equivalente a cerca de US$ 130 por mês, enquanto aposentadorias não ultrapassavam alguns centavos de dólar. “Eu dava aula para quatro mil estudantes. Hoje, a universidade tem menos de 700. A economia encolheu, a educação foi reprimida e a fome virou realidade. Somos mais de 10 milhões de venezuelanos fora do país”, disse.
O sentimento de alívio também aparece no relato de Abrahar Rodulf, de 30 anos, natural do estado de Sulcre. Em Boa Vista há seis anos, ele sobrevive atualmente recolhendo latinhas. “Eu me sinto feliz. Feliz porque não dava mais para viver daquele jeito”, afirmou. Abrahar conta que cresceu em meio à extrema pobreza e que a crise forçou muitas famílias a situações limite. “Minha mãe se prostituiu para poder nos dar comida. Para sobreviver na Venezuela, a pessoa tinha que roubar ou se humilhar. Quem não fazia isso, não conseguia viver sendo pobre".
Morando no Brasil há dois anos e meio, Jesus Martinez, de 65 anos, natural de Carúpano, no estado de Sulcre, diz que a reação entre muitos venezuelanos é de alívio, mas também de lembrança das dificuldades que levaram à migração. “É realmente uma alegria que sentimos, porque se acaba esse regime de Maduro. Nós estamos aqui porque não dava para viver no nosso país, não tinha como comer bem com a família. Como uma pessoa vive com um salário de 1,5 dólar?”, questionou.
A vendedora Lizmar Acagua, de 30 anos, chegou a Boa Vista há seis meses, vinda de El Tigre, no interior da Venezuela. Ela diz que, apesar da felicidade com a queda do governo, o sentimento não é simples. “Não é fácil. A gente não queria estar na rua, nem ter que migrar para outro país. Isso machuca. Então a gente recebe [essa notícia] com uma certa felicidade”. Ainda assim, Lizmar afirma que nunca perdeu a esperança de que algo mudasse. Ela acredita que o futuro pode ser melhor do que os últimos anos vividos sob a crise. “Eu me sinto feliz, sim, porque chegou a hora. Nunca pensei que isso fosse acontecer, mas sempre tive esperança. Cada vez estava pior. Agora, eu acho que pode ser melhor”.
CONTEXTO: Roraima é a principal porta de entrada de migrantes venezuelanos no Brasil, pela cidade de Pacaraima. Desde 2015, o estado recebe grande parte das pessoas que fogem da crise política, econômica e social no país comandado por Maduro.
Do G1.










