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| Avião será biblioteca. |
No primeiro dia em que me puseram no pátio eu senti saudades do espaço. Na verdade, já comecei a sentir essa saudade quando ouvi os pilotos falarem que provavelmente eu não decolaria mais, achei estranho terem falado isso quando estavam me pousando, justamente na viagem em que não contemplei a paisagem, que não olhei para o lado, que não observei aquela cidadezinha, que não sorri ao atravessar uma nuvem – é que faz cócegas quando se atravessa uma nuvem –, não fechei os olhos para sentir o vento. Quando comentaram na cabine, eu já estava quase tocando os pneus na pista e senti o que vocês sentem quando a emoção é intensa: o “frio na barriga”. Tive medo.
Medo de não poder ver mais o espaço, de não ter mais a sensação das nuvens em minha lataria, de... medo do futuro também. Medo de não ver mais o mundo lá de cima.
Não me puseram mais para voar. Estou em uma garagem aqui no aeroporto para avaliação. Os técnicos que passam dizem que não tenho mais jeito, que já deu, que seria extremamente perigoso me pôr no espaço. Se soubessem que vejo e ouço, falariam tais coisas?!
Nunca pensei que deixaria de voar, nunca pensei que aquela seria minha última viagem. Aaah, se eu soubesse! Teria aproveitado cada detalhe. Ou não. Talvez ficasse invadido pelo medo da certeza do abandono, que nem me importaria com os detalhes do espaço. Não sei. Mas sinto muita falta.
Hoje, me tiraram da garagem e me puseram num pátio aberto. Sozinho. Sob chuva e sol.
Hoje, a primeira ferrugem começou a me corroer.
Hoje, alguém me notou. Estão me tirando. Ganharei o espaço novamente? Serei despedaçado? Usarão minhas partes para completar algo?
As turbulências do translado me fizeram lembrar do espaço. Quantas e quantas vezes enfrentei momentos agonizantes no espaço. Tudo parecia que ia se despedaçar. Sentia por dentro a agitação dos passageiros, gritos, choro, orações...
Estava enganado. Me puseram em uma praça. Tiram fotos, ficam próximos de olhos atentos olhando meu tamanho, tocam meus pneus, querem subir, vejo em seus olhos. Sou atração em uma cidade pequena.
Hoje, uma criança tenta dar voo a uma pipa de papel. É meio-dia e descobri que criança não tem medo de sol. Todo vermelho descansa em minha sombra. Deitado me observa.
Hoje, um adolescente encara o sol e observa sua pipa distante. Lembrei do espaço. Do abraço do vento.
Hoje, sou biblioteca.
Estou cheio de livros e pessoas. Não vejo dentro de mim, apenas ouço. É que meus olhos são para fora, como os de vocês, adultos; crianças, não, crianças têm os olhos voltados para dentro. Me atentei a escutar a leitura pausada de uma menina. Lia sobre o espaço, sobre foguete, sobre ir à Lua.
Hoje, sou espaço.
Hoje, fui foguete.
Com carinho,
Boeing 727.
Por Antonio Mauro.

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